sexta-feira, 20 de julho de 2012

Passo a Passo'12


“O peregrino é aquele que, num determinado momento da vida, tempo de procura, de inquietação, de desejo e atracção, se põe a caminho em busca de uma nova verdade de si mesmo”
(D. José Policarpo)

Agora que já passaram uns dias desde o Passo a Passo, é altura de pôr por escrito aquilo em que meditei, aquilo que rezei, aquilo que me levou ao mais fundo de mim mesma.
Depois de partirmos, é importante que cada um perceba qual é o seu ritmo. O ritmo da descrição e da humildade é realmente o mais apropriado. Mais rápido ou mais lento importa que eu ame cada passo do meu caminho seja aqui ou noutro sítio qualquer. No meu ritmo importa que eu me mantenha eu e que cada passo seja tempo de procura, de inquietação, de desejo e de atracção. Estes passos não são simples passeios, são imagens da vida que caminha para Deus e por isso, para a plenitude da santidade.
Eu quero procurar este caminho de santidade com Deus em cada dia. Quero que cada passo seja uma resposta ou pelo menos algo que me leve a ter respostas. Respostas que sejam a verdade da minha vida.

“Verdade! Verdade! Quem sou eu para que me dês a tua verdade? Eu sou o que não sou. Pois a tua verdade é aquela que faz, fala e realiza todas as coisas, não eu!”
(Sta. Catarina de Sena)

O que me trouxe aqui?
A paragem. O precisar de parar para rebentar aquilo que têm sido as últimas semanas vividas em correria, sem ritmo, de forma insípida.
Buscar a paz para o meu espírito.

“Qualquer outro dom que se possua nesta vida é coisa vã como são vãs todas as coisas do mundo”
(Pier Giorgio Frassati)

“As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”...
“Segue-Me”
Que condições coloco a Deus quando Ele me desafia a segui-lo?
Sinto que as vezes que penso em desistir ou as vezes em que digo “é impossível”, “não sou capaz” são obstáculos à Sua vontade na minha vida.
Quantas vezes deixo que não se faça a Sua vontade por medo de encarar as coisas e, num sentido muito mais peregrino, quantas vezes seixo que não se faça a Sua vontade por medo de encarar as subidas, por medo das dores futuras causa dos abusos presentes?
Quando Deus nos chama à santidade convida-nos a recordar a nossa história pessoal e a nossa história com Ele. De volta ao silêncio lembro as vitórias, os erros transformados em lições, os amigos à luz da fé que são agora os fieis companheiros de viagem, os que, pela sua oração, estão aqui bem perto. Dou graças a Deus pelas maravilhas que Ele realiza na minha vida. Dou graças por estes milagres e pelas suas manifestações em mim.

“Aclamai o Senhor, terra inteira, servi ao Senhor com alegria”
(Salmo 100 (99))

Peregrinar leva-me a sentir que a luta é dura e que portanto é preciso que nos esforcemos por vencer a nossa pequena entrada em Damasco, para que possamos caminhar em direcção à Meta e ao Amor que é Cristo vivo nas nossas vidas.
Recebe-me, Senhor, a mim e aos meus passos mal dados. Às minhas caminhadas, às minhas subidas à montanha e às viagens ao mais fundo de mim. Recebe a minha miséria, a minha dor, a minha tristeza, ainda, a minha alegria, a minha esperança, o meu júbilo. Recebe o meu amor, as vezes em que só tento amar. Recebe o meu tempo e as minhas pressas e correrias.
Recebe-me e acolhe-me para que me faça e seja cada vez mais em Ti.

quarta-feira, 20 de junho de 2012



"Todos os dias penso deitar-me às dez e deito-me à uma. Primeiro vejo os mails, depois o Facebook, depois as notícias, depois não sei quê, e quando dou por mim, já passaram duas horas!".
 "É verdade! Às vezes chega a doer, aquele simples gesto de desligar o computador".
Certa vez, no café pós-almoço, estavam falar disto de andar sempre a arrastar a hora de dormir, a querer fazer mais qualquer coisa, e o formador atalhou a conversa e disparou: "o problema é o vazio afectivo".  Aquilo deixou-me atordoado; nunca ouvira falar em tal coisa; mas, com o tempo, reconheci que tinha razão: fazemos braço de ferro com o sono porque precisamos de preencher o vazio afectivo que vai cá dentro. E tentamo-nos encher com isto e mais aquilo. Mas há um momento em que temos que dizer: basta!".
Outro entrou na conversa: "eu também tenho feito esse exercício de deitar mais cedo: até já pus um alarme no computador: às 23 horas o computador bloqueia. Só posso continuar se meter a password". E disse ainda, quando já se levantava para ir embora - "o pormenor decisivo é que a password é "Jesus é o Senhor". Assim sinto-me suficientemente confrontado: se estiver a fazer uma coisa realmente importante, continuo. Se não, ponto final, parágrafo: vou-me deitar!".

Quais são as passwords da nossa vida?

“Com a cara encostada ao vidro, vejo a minha respiração condensar-se. Há casas pequenas lá em baixo, e campos, e um bosque, e um rio, talvez. Algumas almofadas de nuvens na distância. O ruído dos motores é constante, mas a música que oiço esconde-o.

Posso imaginar, vista do chão, a paisagem que sobrevoo. Tenho histórias para cada uma daquelas pessoas que moram em cada uma daquelas casas. Há mil passeios para dar naqueles campos, naqueles bosques. Mas a verdade é que vou para mais longe, onde a paisagem será diferente.

Penso em viajar como a forma mais irónica de descobrir a que sítio chamar «casa». É preciso pôr mil, dois mil, dez mil quilómetros entre mim e esse sítio para perceber onde ele fica. É preciso falar todas as outras línguas para perceber que a língua que falo é aquela que diz as coisas que eu sou.

Por isso todo o caminho é de regresso. Porque esse é o único movimento possível — onde quer que se regresse.

Acende-se a luz do cinto de segurança. Há alguma agitação e alguma turbulência. Começamos a descer, passamos por dentro de uma nuvem. A paisagem aproxima-se lentamente.

Começa a viagem.”


Qual é o tipo de aterragem que praticamos na nossa vida?

Comecemos por aterrar no amor...
Coloquemos diante de nós o Deus Amor.
Todos entendemos a linguagem do amor, todos sabemos o que significa dizer “Amo-te com todo o coração”. O coração de Deus é um coração aberto, exposto, um coração que se derrama, é o coração do nosso Senhor. Diante de nós o Seu tesouro não se contém e despe-se, entrega-se, procura-nos, ama-nos sem medida.
É assim que Deus nos ama, totalmente, absolutamente, sem nenhuma reserva nem nenhum cálculo. É Deus, é assim o Seu amor e a Sua ternura. Hoje, vamos deixar-nos embalar, mimar pelo Senhor. Ele está ansioso por nos trazer nos braços, por nos atrair a Si, por nos pegar ao colo. Façamo-nos crianças, levantemos os nossos braços, o Amor inclina-se para nos pegar.

Imaginemos a rebentação das ondas nas rochas...  "Um coração inquieto protege-se do mar com pedras grandes e pontiagudas; e o resultado são estas explosões de espuma e água que causam estrondo". "Um coração em paz não é assim. Um coração em paz é como uma praia. Sabe que o mar é muito maior em extensão, profundidade e comprimento; acolhe as ondas de braços abertos; aceita tudo o que trazem e tudo o que levam. Um coração saudável é aquele que se deixa moldar pela vida". 

Evangelho
Jesus caminha sobre as águas (Mateus 14)

Convívios Lx (19 de Junho 2012)




Preparar este encontro deu-me a bagagem de rezá-lo várias vezes. De meditá-lo. De sublinhá-lo e de insistir nas cores. Deu-me a bagagem de rezar a minha vida à luz das várias perspectivas que vou tendo e descobrindo do mesmo assunto.
É preciso que eu reze a minha vida, que me distancie e me procure. Que reserve passwords especiais na minha vida e que saiba usá-las na hora oportuna. Que tenha a coragem de viajar e encontrar outros lugares aos quais chamar "casa". Porque se eu só amar o que conheço, o que está próximo e me deixa confortável nada faço de extraordinário.
Vivo no meu "vazio" cheio afectivo a tentar constantemente encher-me com mais isto e mais aquilo e esqueço que é preciso falar todas as outras línguas para perceber que a língua que falo é aquela que diz as coisas que eu sou.
Que tipo de aterragem pratico na minha vida? Como aterro? Dispo-me, entrego-me, procuro e amo sem medida?
Antes tenho um coração inquieto, que se protege do mar com pedras grandes e o resultado são explosões de espuma que causam estrondo. Eu quero ser absolutamente e sem reserva nem cálculo. Quero ser um coração de paz e saber que o mar é muito maior em extensão e profundidade e aceitar tudo o que trazem e o que levam. Ser um coração saudável que se deixa moldar pela vida.
E, em todo este processo, que a password seja "Jesus é o Senhor", é Aquele por quem me deixo embalar e mimar, pegar ao colo e inclinar-se para me dar de comer.

domingo, 17 de junho de 2012


Chega o final de mais um semestre... O final do segundo ano de faculdade. Diz a Joana a propósito de cenas e coisas que não é altura de pensar "nisso" em "véspera de época de exames". Tem razão, mas é difícil não pensar... Chegado o fim de mais um semestre é altura de balanços. E o balanço deste semestre/ano é difícil de constatar, de pensar, de sentir. Foi difícil aperceber-me daquilo que sempre ouvi dizer e que eu não queria realmente confirmar... Não queria confirmar que na minha vida pessoal não há espaço para grande parte das pessoas da vida académica, porque é difícil confiar, confiar-lhes... É mais fácil que continue a "haver uma linha que separa" as "duas vidas"... Está a ser um final de ano difícil de engolir por causa destas merdas, que vêm chatear, desconcertar e desconcentrar... E, realmente, como diz a Joana, não é altura para se pensar nisto, mas é preciso que me queira debruçar sobre isto e pensar sobre isto e abrir os olhos para isto...O resto do balanço virá com os resultados finais, foi um ano mais calmo que o primeiro, pelo menos até agora. Pelo menos sinto-me menos frustrada que no final do ano passado, onde houve stress, chatices e muitas lágrimas por ninharias. Quero serenar, quero aprender a fazer e fazer uma coisa que até aqui não tenho feito muito bem, que não soube fazer, que não esclareci comigo própria, que noutros sítios é "canja" e aqui... coiso! Quero saber amar aqui e poder olhar com amor quando as minhas mãos pegam num lápis e desenham e projectam, pegam num x-acto e em cola e fazem maquetes, pegam nos resultados finais e estão confiantes no trabalho final e no quanto se esforçaram... A firmeza não tem de ser só na fé. A firmeza pode e sinto que deve partir da fé, mas se não se manifestar no meu eu (que não tenho encontrado) e nas minhas acções diárias, algo está incoerente... Algo não sou eu...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Estão a ver quando ao início me perdia em Lisboa (muito mais do que agora)??

Pronto, é isso, mas de outra perspectiva...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Upgrades e Firewall's - O perigo da instalação

O ser humano tem muita dificuldade em abrir-se ao que é novo. É frequente responder com soluções velhas aos problemas novos. É mais fácil ficar nas esquinas da vida. É, portanto, cairmos na instalação. Na instalação de uma falsa alegria. De uma alegria superficial e barulhenta. É fácil ficarmos sem nos perguntarmos a nós próprios se, alguma vez, fomos felizes e se, alguma vez fizémos alguém feliz.É fácil que a nossa alegria dique só na pequena publicidade dos não crentes.
Até que ponto desperdiçamos a alegria porque não a sabemos reconhecer? Até que ponto, como dizia um amigo, deixamos o "programa" sem upgrades, sem acompanhar a evolução e as novas versões deixam de ser compatíveis com o sistema e torna-se necessário fazer um reset? 
O olhar do coração ensina-nos a recolher os pedaços da alegria. Testemunhar a alegria é partilhá-la. Dizia o místico Thomas Merton que "a melhor maneira de conservar a alegria é dá-la". Este é o grande segredo dos crentes.
Na fé, progredir é dar cada vez mais lugar a Deus na minha vida. Ter esta atitude de desinstalação, de abandono. Ter a atitude de mendigo, de que tudo o que tenho e sou é esmola de Deus, De um Deus apaixonado por mim e pela minha verdade. É reconhecer que sou pó e que ao pó hei-de voltar, como nos é descrito no livro dos Génesis e, portanto, reconhecer que aquele "Deuzinho" que eu crio à minha medida é de facto o Criador, algo bem maior que eu. Ele é o Deus das surpresas!!
"Há tempo para chorar e tempo para rir" e tudo nasce dos horizontes da vida.
É urgente que descubramos quais são os motivos, as cenas e as coisas, nomeadamente, TODAS que nos fazem alegrar. É importante percebermos que devemos ligar os nossos firewall's e possibilitarmos a desinstalação, possibilitarmos o abandono nas mãos de Deus, a confiança na providência. É importante que a alegria brilhe no nosso rosto e que nos leve à procura da sensação de paz, que nos leve a procurar o gozo de gozar alguma coisa no coração.
Será que já nos questionámos sobre quais são para nós, para o eu individual, os presentes mais felizes? São aqueles de que estamos à espera ou aqueles que nos deixam desarmados? Para mim, a resposta é "muito inconfundível", se antes era uma pessoa a quem as surpresas não diziam grande coisa, agora abro-me a esta experiência, a este agradável mistério. Abro-me à experiência de correr atrás da alegria e de a encontrar nas pequenas coisas e, de uma forma, bem saborosa. Bem ao sabor e ao ritmo de Deus. Abro-me à experiência do olhar disperto para alcançar a fonte da alegria. 
Eu não quero ser uma Marta que não sabe alegrar-se, quero partir do limiar perceptivo da união com Deus que é orientar a minha vida apartir do Seu amor. Por este amor eu sei que sou querida, que, de uma forma clara e certa, estou no mundo e existo, que sou a filha predilecta e que em mim o Pai também pôs e põe em cada dia todo o Seu agrado, todo o Seu enlevo e alegria. Esta é uma mensagem que chega a todos os filhos, a todos os filhos predilectos de Deus. Deus não ama em série, sabe apenas contar até um. Cada um de nós é único e especial para Ele. Assim, Ele ama-nos com tudo e desde sempre. 
E nós podemos chamar-lhe "tudo" ou, simplesmente, resumirmos a uma palavra: Abba ("Paizinho"); e vivermos esta alegria divina dupla do Pai que se alegra com o Filho e do Filho que se alegra com o Pai. Assim, vive-se na alegria crente do "ESTAR". Como Santo Agostinho nos dizia "amar, querer e crer". Tudo isto implica disponibilidade e, mais importante, fidelidade, mesmo no vazio, mesmo no deserto, mesmo na aridez. Vejamos o exemplo dos místicos, nunca na noite escura disseram "já chega!", antes se mantinham "candidatos ao paraíso", na sua "escura, luminosa noite" a velar a espera do Senhor.
Também nós somos estes "candidatos ao paraíso" e fazemos a cada dia a escolha decidida de apostar tudo n'Ele, de Lhe confiar.
Mas este segredo só eu e Deus é que conhecemos. 
Aqui é tudo, junto de Deus.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Metro da Felicidade





Pode ser um bcado inútil, mas gosto de ler o "Alfaiate Lisboeta" e ontem fiz um grande like :)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Astrónomo e a brisa da noite

“Eu sei que Tu estás aí!” - Gritou de novo o astrónomo, sozinho, no meio da noite. O frio entrava-lhe pelas mangas, o pescoço doía-lhe de tanto olhar para o céu. “Deus, eu sei que Tu estás aí. Dá-me um sinal da Tua presença”. Mas mais uma vez ninguém respondeu.
- Sei que Tu estás aí, Deus Antigo, Deus Imenso - sussurrou o astrónomo. Sei que Te moves devagarinho enquanto as estrelas avançam, lentamente, pela noite. Sei que estendes os Teus braços por milhões de anos-luz até às galáxias distantes. Sei que és muito grande e que brincas com Saturno quando o escondes no horizonte. Sei que no Teu jardim plantas constelações feitas de estrelas. Sei da lágrima que choras em cada estrela cadente. Sei que Tu és Antigo, mais Antigo que a própria Terra. Mais Antigo que esta terra que piso e em que um dia hei-de morrer. Eu sei, mas dá-me um sinal da Tua presença.
Esperou. Mas mais uma vez ninguém respondeu. Durante cem noites o astrónomo subira a esta colina. Durante cem noites esperara ansiosamente um sinal, um sinal por mais pequeno que fosse de que estava certo e de que os seus colegas estavam errados. De que ele estava certo quando dizia haver um Deus maior que tudo. Que eles estavam errados quando diziam que era tudo fantasia sua. Que ele estava certo quando dizia que havia um Criador. Que eles estavam errados quando lhe respondiam com fórmulas matemáticas e com teorias de uma explosão inicial que tudo explicaria. E quando se riam na sua cara. E quando o tratavam como cientista de segunda. Agora, pela última vez, voltava-se para cima e pedia um sinal. Nem pedia um sinal para eles. Pedia apenas um sinal para si, um sinal que lhe permitisse dormir em paz, apesar das gargalhadas dos outros. Mas passaram-se cem dias e cem noites e o sinal não veio. Desistiu. Abandonou-se à brisa, a mesma brisa suave e fria que soprava desde a primeira noite e que tantas vezes o irritara por não o deixar concentrar-se.
- Olá -disse uma voz jovem e descontraída.
- Boa noite. - Disse o astrónomo surpreendido. - Não te vi. Como chegaste aqui sem que te sentisse? Perdeste alguma ovelha?
- Estava a ver é que te perdia a ti. -Respondeu a voz, a sorrir. -Cem vezes pediste um sinal. Cem vezes te toquei com a minha brisa. Creio que hoje te preparavas para não voltar.
- Senhor, Meu Deus! Sois Vós? O Altíssimo? O Deus Antigo? O Deus Imenso?
- Bem, se me preferes chamar assim...
- Senhor, Altíssimo, Tu não devias estar lá em cima nos céus? Não é lá que Tu moras? O que estás a fazer aqui?
- Onde eu moro não brilham estrelas, a não ser quando o coração de algum homem se converte ao amor. Nem há constelações, a não ser quando dois ou mais se reúnem em Meu nome. Moro onde tu moras. Compreendes?
-Tu moras onde eu moro?! Eu moro numa casa tão pequena e Tu és tão grande!
- Só é grande quem se encaixa no pequeno por amor.
- Sempre pensei que moravas no céu e que por isso o céu era tão grande. Sabes, às vezes ficava horas e horas sem fim a olhar a imensidão das estrelas e a pensar em Ti. - Eu sei. Eu vi-te quando te comoveste, encostado à figueira, a olhar o céu. Fiquei com vontade de te contar tudo, sobretudo de te dizer isto: O universo não é a minha casa. É a tua. É a casa que Eu criei para ti e para todos os homens. Sabes, às vezes os pais montam casas para os filhos...
- Mas então porque é tão grande o universo? A nós chegavam-nos umas quantas montanhas e outras tantas planícies...
-Sim, se calhar tens razão. Talvez tenha exagerado. Sabes como é, uma pessoa quando é Deus pensa nos homens e entusiasma-se... Pegamos em papel e lápis e desenhamos o Sol e a Terra, um à frente do outro. “Terão a Terra para habitar e o Sol para os aquecer”, pensamos. Fica bem, mas ainda está tudo muito parado. Pensamos então em pôr a Terra a rodar à volta do Sol para haver anos e darem pelo tempo passar. E pomo-la a rodar sobre si mesma para haver dias e noites e poderem recomeçar a vida de novo cada manhã. E já agora inclinamos um pouco o eixo para poder haver estações, e sementeiras e colheitas no tempo certo, e festas. A Terra até fica bem assim -um belo planeta para os homens! - e resolvemos então pôr mais planetas à volta do Sol. Todos diferentes, uns maiores, outros mais pequenos, um com anéis, outro com satélites. Quando damos por ela já vai em nove e resolvemos que chega. De facto de dia chega, mas de noite achamos tudo bastante escuro. Os homens, de noite, morrerão de tédio, pensamos. Começamos então a desenhar estrelas e mais estrelas. Primeiro uma pessoa pensa em pô-las todas alinhadas. Depois começa-se a desarrumar tudo e a fazer constelações. Será bem mais divertido para os homens olhar um céu assim... Começamos com uma constelação, e já agora outra ali mais ao lado, e quando damos por ela já vamos em milhões de galáxias a milhões de milhões de anos-luz. E já agora umas nebulosas, e já agora uns cometas de vez em quando para que fique tudo mais emocionante, e já agora a Lua, para que o mar tenha marés-cheias e marés vazias e eles tenham semanas e ao sábado se possam apaixonar.
-Tenho uma pergunta, Senhor. É uma pergunta um pouco embaraçosa. Os meus colegas dizem que Tu não criaste nada. Que tudo aconteceu numa grande explosão, há muitos milhões de milhões de milhões de anos.
- Bem, imagina que Eu decidi criar através de uma explosão...? Não posso criar da maneira que achar melhor? Também as árvores nascem devagarinho das sementes, isso eles entendem. Entendem que a árvore já lá está toda naquela semente pequena que o tempo irá regar. Eu é que não entendo os teus colegas. Se houve uma explosão, alguma coisa tinha de existir primeiro para que depois houvesse explosão, não é? Os homens, quando descobrem as leis do universo, sentem-se tão contentes que se esquecem de que para haver leis foi preciso que eu inventasse essas leis. Esquecem-se de que para que alguém possa descobrir, alguém antes teve de criar.
- Desculpa-me o atrevimento, Senhor, de Te fazer tantas perguntas, agora que Te tenho aqui à mão... Mas então a Bíblia? Não diz que Tu fizeste tudo em sete dias? Eles dizem que um universo assim nem em sete milhões de anos.
- Os homens esqueceram a poesia. E sem poesia não entendem quando Eu falo. Esqueceram que sete quer dizer plenitude. A plenitude do Meu amor. É isso. É só isso que precisam de saber, para depois poderem olhar pelos telescópios e não se perderem. A Bíblia não diz como criei, diz que criei tudo para vocês, por amor. E explica como é que podem usar de tudo com amor e serem felizes. A Bíblia não é um manual de fabrico, é uma espécie de manual de instruções, percebes?
- Mas então Tu não te importas que nós olhemos o céu com telescópios? E que depois vamos para casa fazer contas e escrever livros de ciência? E depois, se calhar, que nos metamos numas naves para ir ver mais de perto...
- Quero que amem a casa que vos dei. Quero que a contemplem e conheçam. Há nela recantos que ainda nem sonham que existem. Quero que usem a inteligência que vos dei e que os vossos filhos saibam mais que vocês, e que os filhos deles saibam mais que eles. Só tenho pena é que ainda saibam tão pouco.
- Não são segredos a mais? Por que é que não dizes logo tudo de uma vez? Poupavas-nos tanto tempo!
- Sim, Eu podia dizer tudo de uma vez. Podia até escrever uma legenda no céu com letras de raios laser a dizer que o autor sou Eu e que escusassem de pensar mais. Poupava-vos muito trabalho e conseguiria que todos me adorassem. Mas tirava-vos a liberdade e sem liberdade não há amor. Prefiro que me descubram pelo amor. Detestaria que me adorassem à força. Percebes isto?
- Mas, Senhor, assim há sempre quem se esqueça de Ti.
- Como é que Tu, sendo tão grande, Te sujeitas a isso?
- Maior grandeza é não se impor. Amar somente, escondido no brilho dos astros, na escuridão da noite, no soprar da brisa. Chamar sem forçar. Falar ao coração daquele que olha o universo, como quem sussurra, e esperar que me deseje. Como tu, nestes cem dias, nestas cem noites em que me abriste o teu coração e eu te desejei e tu me desejaste até quase não poderes mais.
“Deixei-Te até quase não poder mais”, concordou o astrónomo, no cimo da colina. Quando abriu os olhos não viu ninguém. Sentiu apenas a brisa da noite que lhe tocava a cara. Mas agora já não tinha frio.

“O Príncipe e a Lavadeira” (Pe. Nuno Tovar Lemos SJ.)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Do bloquinho...

"Senhor, perdoa as vezes em que eu basto a mim própria, em que o meu olhar é tudo, em que eu sou tudo no meu olhar. Em que não existe o irmão ao meu lado, em que Tu não existes no meu coração, em que a minha autosuficiência toma posse e o egoísmo tem sempre a palavra maior. Perdoa as vezes em que esqueo as coisas importantes por viver no meu mundo de horizontes curtos...
Obrigado por Te manifestares nos testemunhos dos outros... Na presença constante destes que caminham comigo, que tornam o meu caminhar sustentado, na presença destes outros que são sicómoros da minha vida.
Obrigado por os cumulares de graças."

[29 de Nov 2011]


"Dou-Te graças pelo dom da vida.
Da vida em nós, da vida dos que nos rodeiam e das vidas novas.
Dou-Te graças pelas famílias. Pelo dom das famílias. Pelo bom que é sentir esse amor que brota e é incondicional, pelas chatices que às vezes fortalecem e pelas famílias em construção e em constante renovação do Teu amor. Pelo Teu amor vivido nos nossos lares, nos nossos dia-a-dias e nas nossas amizades que são provas vivas de que existes e Te reunes no meio de nós."

[2 de Dez 2011]


"Muitas vezes caímos o erro de que o "eu" prevalece sobre tudo. E, quando não estamos bem com este "eu", dificilmente, estaremos bem com o "nós"...
Quando o "eu" se insere no "nós" o que acontece, inevitavelmente, é que o "nós" prevalece. E prevalece porque este "nós" são os nossos irmãos em Cristo, são os que entram na nossa vida e a transformam, constatemente."

[5 de Dez 2011]


"Hoje, aqui em casa, Deus trabalhou no turno da noite... Depois de um fim-de-semana meio estranho, eis que chega o domingo à noite e dou graças e louvo o Senhor pelas maravilhas que concede à minha vida. Por cada um de vós que é sustento para mim. Hoje, entrego as vezes que tenho vacilado, as vezes em que nem só Deus me basta, em que eu, os meus caprichos, os meus outros eus, bastam a mim mesma...
Hoje, Ele trabalhou no turno da noite, veio mostrar-me como é bom "embebedar-me" de luz e ser portadora desta luz no mundo...
Hoje, Ele operou na escurisão de forma a transformar os meus medos..."

[11 de Dez 2011]


"Em História da Arquitectura Clássica e Medieval víamos, como um triclinium, antiga sala de cerim+onia das domus mais ricas se transformavam dando origem num período paleo-cristão, posterior, ao local de culto, em sentido muito figurado eram uma "reencarnação da Última Ceia".
Todos os dias remos na nossa vida reencarnações da Última Ceia. Naturalmente, quando nos sentamos à mesa, damos graças e partilhamos a refeição. Cristo não se torna o pão, mas faz-se presente entre nós e na minha atitude humana, assemelho-me a Judas. Àquele que trai, que O nega. É, eu passo a vida a negá-Lo nas várias "reencarnações" que a Última Ceia assume na minha vida e em todos os outros aspectos.
Queria poder arrancar de mim esta mentira que é, esta mentira que sou e que transforma em cacos a minha frágil inteireza.
Livra-me de mim..."

[5 de Jan 2012]


"Perdoa Senhor, os passoas vacilantes do meu dia, o meu desamor, a falta de empenho, a preguiça. Perdoa estas faltas que não tenho forma de mascarar...
Ensina-me a abandonar-me em Ti, ensina-me a responder "Sim" e a levar o Teu convite de amor aos que me rodeiam, ensina-me a buscar-Te em caa minuto e a fazer do meu corpo e do meu coração Tua morada."

[8 de Jan 2012]

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Citando um grande amigo: "uma coisa que não faz falta à minha alma é espaço. Espaço vazio que sempre tentei encher, preencher, sobrelotar até transbordar!"
Eu também tenho este "espaço vazio", se pensarmos todos o temos, aquilo que fazemos com ele e como o destinamos é que varia.
Hoje dei comigo a pensar o que faço eu com o meu espaço vazio. Naturalmente, encho-o. No entanto, encho-o com aquilo que me esvazia e me torna um coração duro, de pedra. Encho-o com a arrogância e a autosuficiência do dia-a-dia, aquela que diz "não preciso disto para nada!", "não sinto falta disto ou daquilo! porque simplesmente não me deixa feliz".
Pensei o que seria isto do ser feliz... Se faço esta escolha todos os dias, se caminho para ela, não era suposto que essa escolha fosse pensada e meditada segundo "padrões" de felicidade que, admitamos, ser o olhar de Deus?
Às vezes não me sinto nada coerente, nem me sinto a dar passos no sentido da coerência.
Entrego-Te o meu dia, o que fiz para Ti e os passos que recuei perante o Teu amor.

[3Jan2012]